Você está de castigo!

Por Leonardo Costa

Transformar a punição em um aprendizado pode ser o melhor caminho para mudar o hábito cultural do castigo, que já poderia ser abolido da educação infantil.

“Tá de castigo”, “vai para o seu quarto”, “fica sentado no cantinho, pensando no que você fez”, “se eu levantar daqui você vai ver” são expressões comuns utilizadas durante a infância, com o intuito de educar. Mas, os castigos ainda considerados como práticas educacionais, também são identificados como grandes vilões pedagógicos e podem criar um clima de medo, que pode atingir a moral e a personalidade infantil, transformando jovens em adultos problemáticos.

Os castigos estão presentes nos diversos ambientes frequentados pelas crianças e adolescente. Tanto no âmbito familiar quanto no escolar, e ao invés de construirmos um ambiente de alegria, satisfação, construtivo e aprendizagem, criamos um lugar de tensão constante e medo. Mas, qual o caminho correto para uma boa educação? Também não conseguimos encontrar a fórmula perfeita, mas apresentaremos algumas dicas que irão contribuir bastante para uma boa abordagem, formação de valores positivos e bom desenvolvimento social.

Quem educa
Geralmente, a responsabilidade sobre a educação de uma criança recai sobre a figura materna. Porém, é preciso reconhecer que a responsabilidade é de todos os envolvidos na rede de convivência da criança. Os agentes mais importantes na criação infantil estão na família e representam apenas uma parte do todo. Os pais podem observar os aspectos relacionados ao desenvolvimento emocional e afetivo, mas é na escola que conseguiremos perceber outros aspectos como a relação social, desenvolvimento cognitivo, corporal e raciocínio lógico. É importantíssimo construir uma boa relação de diálogo com as escolas, onde o foco sempre deve ser a criança.

Internet não educa
Psicólogos não indicam nenhuma experiência virtual para crianças com até dois anos de idade. Afirmam que, o melhor processo de aprendizado, a base do desenvolvimento neural, está no mundo físico, com as experiências concretas. Onde poderão viver uma articulação de 360º que envolve todos os sentidos. O processo de abdução pelo eletrônico, apesar de muita informação, reduz o aprendizado. Além de termos na internet alguns youtubers que compartilham valores negativos como o consumismo infanto-juvenil.

Castigo x Aprendizado
Alguns psicólogos apontam que precisamos mudar o castigo para aprendizado construtivo. Ambos têm uma diferença tênue que acarretam grandes consequências na formação do indivíduo. Os castigos que muito recebemos durante a nossa infância não nos apresentaram valores construtivos, com base em nossas escolhas, podendo entrar no campo da banalização pela repetição automática do castigo por ter feito alguma coisa.

Se refletirmos melhor sobre o seu contexto, o castigo passa especificamente pelo adulto. Ele vem do adulto para a criança ou adolescentes por algo que foi feito de errado. Ainda vem carregado de sentimentos negativos como irritação, raiva, com um discurso bravo e pontual. Psicólogos afirmam que as crianças enxergam o castigo como uma pena, que após ser cumprida, acarretam sentimentos de revolta, irritação e sem aprendizado.

O aprendizado é sempre visto como o melhor caminho para um bom desenvolvimento. Quando trabalhamos as consequências, trabalhamos o resultado das escolhas de suas atitudes. A criança precisa aprender que todas as nossas atitudes tem um resultado, que pode ser positivo ou negativo. É ela entender que a sua ação vai produzir uma resposta para tudo em sua vida, descarregada de revolta e repleta de aprendizado.

A responsabilidade dos pais sobre a imposição do castigo é substituída pelo compartilhamento dos sentimentos de frustração ou sucesso das crianças. Quando a criança disser que está chateada ou que não gostou de alguma situação/consequência, alguns especialistas orientam em afirmar que também estamos com o mesmo sentimento que elas e conduzirmos uma reflexão sobre o que aconteceu para acarretar aquela situação. Por exemplo: O que foi que você fez? E se você tivesse feito de outra forma, qual seria o resultado que poderíamos ter conseguido? Não teria sido melhor?

“A responsabilidade dos pais sobre a imposição do castigo é substituída pelo compartilhamento dos sentimentos de frustração ou sucesso das crianças.”

O processo de reflexão é apontado como uma ferramenta de autoconhecimento, onde a criança pode se perceber, perceber os outros e entender que ela não está sozinha. Que ela está sendo acompanhada pelos adultos. A frequência da reflexão consolida o princípio de que tudo que ela vive e experimenta é resultado das suas escolhas. São valores muito mais fortes e amplos.

Imagine um adolescente ou jovem, que está habituado a refletir e escolher as suas atitudes de acordo com alguns panoramas, desde a infância. Ele está muito mais preparado para um amadurecimento saudável, mais calmo, consciente e menos ansioso. Outro resultado positivo apresentado é o papel dos pais, que saem da posição de carrascos, punitivos para companheiros, que orientam e compartilham os sentimentos durante o processo de escolha.

Não, mas com explicação
A percepção do não vai ser diferente de acordo com a idade da criança. Ao se tratar de crianças na primeira infância, psicólogos alertam que a percepção, identificação e compreensão do “não” apenas será possível através das experiências cotidianas. A criança irá perceber a mudança no tom da voz e expressão do rosto, alinhados ao contexto da situação. A negação na utilização de algum objeto deve ser feita com a apresentação de outro objeto interessante, substituindo a atenção para algo diferente, mais seguro ou construtivo.

A partir dos dois anos de idade, a criança passa a entender melhor os “nãos” que já devem ser complementados por alguma explicação, como: “não pode colocar a mão na tomada por que você pode levar um choque”, por exemplo. O princípio da explicação é a estratégia de posicionamento do adulto sobre uma determinada situação. Psicólogos afirmam que o posicionamento é que ensina. O “não, por que não pode” traz apenas o autoritarismo.

Violência gera violência
É preciso impor limites, mas sem violência psicológica ou física. A violência verbal, com xingamentos ou ameaças, ou até mesmo os castigos físicos não devem ser escolhidos como um caminho para uma boa educação. Além de ser considerada como uma atitude covarde e autoritária, um ato de violência não pode ter consequências senão violentas. Uma criança que é educada com violência, só poderá se tornar um adulto violento e intolerante, que não consegue dialogar.

CASTIGOS QUE PRECISAM SER ABOLIDOS
Físicos
Amarrar em cadeira, bater, beliscar, puxar o cabelo ou a orelha, torcer o braço, morder.

Psicológicos
Gritar, xingar, jogar água, depreciar verbalmente, ameaças de abandono ou agressão.

Não bata, eduque
Se tratando de violência física, em nossa sociedade, culturalmente, o tapa é visto como algo corriqueiro. O tapa pode ser o início de um ciclo de agressões que tendem a aumentar de acordo com o nível de estresse dos adultos. Ao sofrer uma violência física a criança sente medo, relacionado a uma pessoa mais forte que ela, que pode ser transferido para o menino mais forte na escola ou até mesmo para o seu chefe, quando adulto. Além de entender que a violência é o caminho mais fácil e rápido de conquista e solução de conflitos.

Não Grite, dialogue
O grito traz o susto e o medo como combustível para impulsionar a criança a fazer o que queremos. Dificilmente a criança irá absorver o conteúdo da mensagem que está no grito. Psicólogos afirmam que esta prática pode ocasionar um condicionamento, ou seja, só agir quando houver o grito, indo no caminho contrário de um aprendizado consciente.

É necessário ter um cuidado em como nos comunicamos com as crianças. A comunicação tradicional é considerada muito ineficiente. Por exemplo, quando o dulto está do outro lado da sala, ou até mesmo em outro cômodo e quer falar com a criança que está com a sua atenção focada na TV, tablet ou smartphone. É aconselhado chegar perto da criança, ficar no mesmo nível do seu olhar e conversar com ela, dando a orientação necessária.

O diálogo sempre é o melhor caminho para o bom desenvolvimento infanto-juvenil. Através dele, conseguimos explicar e racionalizar como as coisas ou determinadas situações acontecem. O grande desafio do diálogo é conseguir encontrar os melhores termos para lidar ou acordar determinadas situações. Com ele conseguimos entender o que realmente está acontecendo com as crianças, identificar os problemas e a melhor forma de intervenção.

A escola do futuro
Quando pensamos na escola do futuro, não podemos vincular o seu princípio aos desenvolvimentos tecnológicos. A tecnologia precisa ser vista como uma ferramenta de construção e aprendizagem, e não apenas como consumo. A proposta pedagógica da escola do futuro é de pensar no aluno como protagonista do ambiente educacional, participando do processo de elaboração do seu plano de estudo. Democraticamente, envolvendo todos os personagens acadêmicos: gestores, professores e auxiliares.

Partindo do fundamento básico da educação, que “só se aprende, a partir do querer”, estudos comprovam que o envolvimento dos alunos na composição dos roteiros de alfabetização proporciona um maior interesse em participar de algo que eles se sentem parte. Os professores e tutores auxiliares são responsáveis por articular neste novo formato o cruzamento de atividades que envolvam arte, música e outras áreas disciplinares para alcançar o objetivo do roteiro de ensino.

Hoje, já surgem algumas escolas de referência, moldadas pela proposta pedagógica democrática, onde a educação passa a ter mais sentido para realidade das crianças e dos adolescentes. O professor se transforma em um facilitador no processo educacional. Para mudar o cenário conservador educacional é importantíssimo o diálogo dos pais com as instituições de ensino. Acompanhar os filhos na escola é essencial.

Conclusão
As crianças recebem o que temos de melhor e também o que temos de pior. É importante mantermos um equilíbrio para conseguir ter o melhor comportamento e abordagem. É um grande desafio conseguir vencer o cansaço, a irritação e os problemas cotidianos da vida adulta. É preciso quebrar o ciclo e fazer diferente. No final das contas, conseguimos ser os pais possíveis, com a melhor educação que conseguimos construir e reproduzir.

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