O Hábito de Conviver

Um ato tão simples, que nos dias atuais é considerado como uma tarefa difícil que acaba tendo o seu sentido modificado e desvirtuado durante as nossas vidas.

Por Leonardo Costa

Ao conversar com algumas pessoas com mais de 60 anos de idade, foi comum ouvir que elas estão cansadas de determinados convívios. Elas afirmam não ter mais paciência para determinadas situações e estruturas de diálogos, como fofocas, falta de compreensão e ignorâncias. Mas esta impaciência também é encontrada entre os jovens e adultos.

Um bom exemplo foi o contexto nas redes sociais referente à defesa das plataformas políticas dos seus respectivos candidatos. Tais atitudes agressivas e hierárquicas, de imposição vertical das verdades e opiniões, podem causar um afunilamento das relações sociais. E, tirar o prazer do convívio, que não seja pelas obrigações como trabalho, estudo ou de consumo.

Fases da Vida
Durante a infância, as crianças são o centro do universo familiar e o sentido de pertencimento a este núcleo cresce a cada dia. Os ambientes de convivência são restritos à família, o primeiro núcleo social, até o momento de expansão quando a creche ou a escola é inserida na rotina. Capaz de compreender o que acontece ao seu entorno, elas são estimuladas pelas brincadeiras (reconhecidas como uma forma de comunicação), escolarização e outras formas de interação com o mundo.

“Muitas pessoas, em nossa sociedade, estão ignorando as regras de convivência, que é preciso reconhecer e considerar o outro. Onde, o seu limite é o limite do outro. E, a sua liberdade termina na liberdade do outro.”

A adolescência é caracterizada pelas mudanças biológicas e psíquicas. Nesta fase, os comportamentos e as formas de se relacionar com o outro recebem forte influência, além da necessidade de pertencimento a algum grupo. Os ambientes sociais continuam em expansão, atingindo o auge das relações interpessoais na fase adulta, quando entramos no momento das construções sociais pela vida profissional e ampliação da família, construindo o seu próprio núcleo.

A psicóloga do Programa Vida Saudável, Pâmela Medeiros, explica que na velhice precisaremos preservar as relações sociais para manter as atividades prazerosas que podem estimular a coordenação motora e cognitiva, além da memória e raciocínio. Ela ainda reconhece os avanços tecnológicos, pelas redes sociais digitais e aplicativos, como uma ferramenta positiva, que pode auxiliar na descoberta de novas possibilidades.

Projeções do Instituto brasileiro de Estatística (IBGE) apontam que a população idosa, acima de 60 anos, no Brasil deverá dobrar até 2042. Tiveram como base uma comparação dos dados levantados em 2017. Período que superou a marca dos 30,2 milhões. Você já pensou como será a sua vida social na terceira idade? Ou, como ampliá-la para novas convivências e experiências? Será que teremos um afunilamento das relações sociais e nos isolaremos?

Isolamento Social
Este afunilamento das relações pode chegar a um ponto ainda mais grave, o isolamento social. Ele ocorre quando um indivíduo, de forma voluntária ou inconsciente, deixa de se relacionar com outras pessoas. Ou seja, se afasta por completo de atividades sociais, evitando contato ou interação.

Segundo estudo feito pela Universidade de Buffalo e da Escola de Medicina Monte Sinai, este tipo de isolamento, quando prolongado, pode ocasionar alterações cerebrais que causam ainda mais afastamento. A região do cérebro responsável pelo comportamento emocional, social e cognitivo tem uma diminuição de matéria branca (mielina), que conduz de forma mais rápida e eficaz os impulsos nervosos.

A boa notícia é que o nosso cérebro é muito adaptável. Esta plasticidade cerebral nos torna capaz de nos adaptarmos às mudanças ambientais e às experiências. Neste sentido, basta algumas boas amizades, conversas e compromissos sociais para um período de integração para reverter as consequências negativas do isolamento. Mas como ultrapassar os limites do “eu” e escutar o outro?

O outro
Muitas pessoas, em nossa sociedade, estão ignorando as regras de convivência, que é preciso reconhecer e considerar o outro. Onde, o seu limite é o limite do outro. E, a sua liberdade termina na liberdade do outro. Explica o historiador Leandro Karnal, em um de seus vídeos reflexivos. Quando olhamos para o outro, o que enxergamos? Quais o sentimentos que conseguimos reconhecer?

Devemos entender que ao nos conectarmos com o outro, é preciso nos abrirmos para as mais diversas formas ideológicas. Não podemos fechar as antenas e deixar de fora o que se torna diferente do seu mundo conceitual. Até mesmo, devido a possibilidade desta experiência poder nos proporcionar uma nova releitura da realidade, com novos conceitos. Mas, como conseguir esta fórmula?

Saiba escutar
Conviver é sinônimo de coexistir, coabitar. É o ato de ter relações cordiais com os que estão próximos, em prol de um bem comum. É fundamental refletir sobre as relações interpessoais e como as conduzimos, em relação a nós mesmos e a nossa evolução, a partir do aprendizado com o outro.

O fato das pessoas não se escutarem mais é atribuído a uma demanda espontânea, agregada a uma cultura da indiferença, do ódio, da segregação e da hiper-individualização, explica o psicanalista e professor Christian Duker, em um vídeo da Casa do Saber. Ele considera, ainda, que isto deveria ser matéria no currículo escolar. Porém, a pergunta se mantém. Como aprendemos a escutar o outro, sem perdermos a riqueza da nossa diversidade?

Na opinião da Psicóloga Pâmela Medeiros, desenvolvemos uma impaciência com o tempo do outro. “Quando, o que é diferente de mim, não me interessa mais”, exemplifica. Por outro lado, é reconhecido que, a diversidade da nossa sociedade só poderá ser aproveitada, em sua totalidade, quando conseguirmos escutá-la. Mas, não é tão simples assim. É preciso desconstruir a estrutura de diálogo atual, que naturalizamos ao longo da nossa socialização. Uma visão hierárquica, polarizada e vertical. Onde um tem o poder da razão e o outro, equivocado, a posição de ouvinte da informação.

Você se coloca em qual lugar para escutar? A construção de uma troca horizontal traz a possibilidade de você se colocar no lugar do outro. Não podemos escutar o outro a partir de nós mesmos, com os nossos interesses e convicções. É preciso sair de si. Este é considerado o primeiro movimento contra narcísico, nas relações, que é muito comum percebermos nas desavenças entre casais. Um exemplo mais atual é posicionamento durante uma conversa sobre política.

O segundo movimento é se abrir para aquilo que ainda não sabemos, explica o professor. Quando isto não acontece, mantemos duas certezas equivocadas. A de que o outro sabe o que quer e tem todo o seu pensamento estruturado para o seu posicionamento. Muitas vezes, durante a nossa própria fala, conseguimos descobrir coisas que ainda não tínhamos clareza que queríamos agregar ao discurso. “Às vezes, não escutamos o que estamos falando”, lembra a psicóloga Pâmela Medeiros.

Por isso, não podemos ser soberanos sobre o que queremos dizer. Segundo o professor Christian Duker, isto cria uma binariedade das relações com a verdade. Ou seja, quando um está certo o outro está errado. Quando ambos podem estar equivocados ou parcialmente certos. A disputa pela razão deve ser deixada de lado. Pois, segundo ele, sem a soberania da razão, deixamos de ser surdos perante o outro.

É extremamente relevante que consigamos entender que a comunicação está destinada ao fracasso. E, que conseguimos sair deste fracasso quando reconhecermos que sempre deixaremos um resíduo, algo entre dito, mal concluído e não resolvido, explica o professor. Onde, uma boa posição de escuta é aquela que consegue suportar a incerteza e se abrir para a experiência maior da troca e aprendizado.

“A convivência com os animais de estimação também pode proporcionar a sensação de felicidade nas pessoas. O animal demonstra todo o carinho e alegria pelos donos, liberando bons sentimentos.”

Animais
A convivência com os animais de estimação também pode proporcionar a sensação de felicidade nas pessoas. O animal demonstra todo o carinho e alegria pelos donos, liberando bons sentimentos. Além de hormônios do bem estar como serotonina, dopamina e a endorfina. Tais substâncias ainda podem aliviar alguns sintomas da depressão, ansiedade e estresse do dia a dia. O convívio com os bichinhos é indicado por especialistas, principalmente, para crianças pela oportunidade de desenvolvimento social e pessoas que morem sozinhas.

Valores
Reflita sobre onde está colocando a sua atenção. Durante esta reflexão, tente identificar o que está sendo supervalorizado, exagerado. O que estamos cultivando, que, de alguma forma está solidificando as nossas opiniões, ao ponto de não querermos mais escutar o outro? Se esvazie de coisas que não fazem bem ao seu desenvolvimento (pessoal e interpessoal) e personalidade, como: o medo irracional, a preocupação excessiva com o futuro (sem viver o presente), insegurança, rigidez no pensamento e o pessimismo que nos cega para as mais diversas possibilidades.

Seja positivo e entenda que tudo precisa ser transformado em um aprendizado. Estamos nesta vida para aprender e evoluir. Seja sincero consigo mesmo e com os outros, mas não de forma agressiva e inconveniente. Cultive a boa sinceridade construtiva, aquela observação, conselho e opinião que irá contribuir para o aperfeiçoamento do grupo que estamos convivendo. Ao falar de um erro, compartilhe a humildade de quem já errou. A gentileza do diálogo pode trazer benefícios gratificantes nas relações.

Uma boa convivência sempre será a melhor política. Com ela conseguimos pela interação, aprender muito com o outro e ainda contribuir com o que temos de melhor, a nossa experiência. Apesar de termos uma personalidade inata, os nossos comportamentos, opiniões e conceitos são moldados e remodelados ao longo da nossa vida.

A cada diálogo e contato com a possibilidade de integração temos a oportunidade de reaprendermos aquilo que talvez fosse uma certeza absoluta. Pois somos influenciados por tudo e por todos, e ainda assim, sem perdermos a nossa autenticidade. “Precisamos ser fiéis ao aprendizado e à sabedoria, não à teimosia e à ignorância”, orienta Alexandre Caldini Neto, em sua publicação que traz reflexões sobre o sentido da vida e o caminho para a evolução espiritual.

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