Conversar faz bem

Por Christine Keller

Saiba como manter um diálogo construtivo.

Uma das necessidades básicas do ser humano é se comunicar. Seja através de gestos, linguagem corporal ou da fala. A boa conversa é essencial. Numa era em que as pessoas são bombardeadas 24 horas pela informação de todas as formas é possível o diálogo “olho no olho”? As redes sociais facilitam o bate-papo ou atrapalham? Como se colocar sem ferir o outro nem se magoar? Podemos construir uma interlocução positiva baseada na não-violência? Quando é necessário procurar a ajuda de um profissional? Vamos sanar todas as suas dúvidas e ajudar a melhorar essa prosa!

Pra começo de conversa…
Vivemos em sociedade e interagir com outras pessoas é fundamental. E quem não gosta de expor sua maneira de pensar e enxergar o mundo, seus desejos e opiniões? Seja no diálogo entre um casal, em uma roda de conversa entre amigos na mesa de um bar, ou um simples bate-papo casual com os familiares. Essa é uma das formas mais diretas e eficazes de troca. Ela nos possibilita, além da expressão, aprendizado, ampliação de nossa consciência, enriquecimento de vocabulário, compartilhamento de ideias, conexão de pensamentos e solução de conflitos.

Quem não consegue conversar acaba se isolando e deixando de desfrutar muitas possibilidades de crescimento, carregando pesos de angústias, mágoas, muito sofrimento e problemas não resolvidos por anos. O resultado é uma vida infeliz, doenças, faltas de perspectivas e de experienciar momentos enriquecedores na permuta de sentimentos e vivências.

Relacionamentos: Conversando a gente se entende…
Seja entre pais e filhos, irmãos, amigos ou casais, é certo que a qualidade do relacionamento depende, e muito, de como os diálogos são vividos. Uma boa conversa, onde cada um pode expor sua maneira de pensar sobre determinada questão e trazer seus referenciais é um bom começo. Saber escutar e até discordar, se for o caso, sempre mantendo o respeito, é fundamental para uma boa relação, com entendimento mútuo, e, se for o caso, uma nova formatação de relacionamento, que seja positiva para ambas as partes.

A boa conversa é um excelente exercício onde, além de expressar sentimentos, desenvolvemos empatia, reciprocidade, raciocínio lógico, pensamento crítico e poder de argumentação. Além disso, estimulamos nossa atenção e uma escuta mais alerta e ponderada. Ouvir o outro lado não significa necessariamente concordar, mas abre caminho para reflexões e busca de novas possibilidades dentro de uma construção conjunta. Crescemos individualmente e na relação.

Um relacionamento onde não há uma boa conversa com certa constância é fadado a ser problemático e gerar muitos conflitos, quando não a violência, que vai num crescente e pode ter consequências traumáticas a irreversíveis. Ao contrário, quando o diálogo faz parte do dia a dia, reforça vínculos e melhora a qualidade da relação.

Você é flexível ou cabeça-dura?
Existem indivíduos que possuem uma personalidade flexível e adaptável, sempre abertos ao diálogo saudável e agregador. Geralmente são pessoas de bem com a vida, positivas, propositivas, otimistas, com uma boa autoestima. Capazes de reconhecer e aceitar não apenas suas próprias qualidades e defeitos, mas as de todos com quem convivem.

Em contrapartida, há aqueles que são mais inflexíveis, rígidos e pouco abertos ao diálogo saudável. Estes têm dificuldade em escutar o outro lado e, dificilmente aceitam opiniões contrárias às suas. Segundo Claudia Guimarães Bernardo, Psicóloga & Coach:

“Cada situação é única, mas podemos observar mais frequentemente que algumas características e psicodinâmicas pessoais podem interferir na qualidade do diálogo. Pessoas mais maduras e seguras emocionalmente tendem a ser mais flexíveis ao aprendizado e apresentam escuta mais ativa e respeitosa quanto às diferenças de opiniões e referenciais de vida. Neste caso, a conversa é mais fluida e rica em trocas. Indivíduos mais rígidos, ou feridos emocionalmente, podem ser mais reativos e apegados aos seus referenciais, como se o “diferente” pudesse representar um risco e abalar a sua estrutura. Querem manter a sua sensação de segurança, preservando aquilo que já têm como área de domínio de conhecimento, sobre o qual é difícil rever ou lidar com o desconhecido. Neste sentido, a conversa pode ser como se fosse um duelo, ao invés de uma troca saudável”.

Algumas situações específicas podem gerar perfis mais rígidos e fechados ao diálogo como certas doenças mentais, que afetam o comportamento e vão interferir na convivência e consequentemente, nas conversas e trocas. Podemos citar como exemplo, indivíduos com transtorno de personalidade, de humor ou antissociais, entre outros casos. Pessoas que fazem usos de álcool ou drogas também terão dificuldade em dialogar, pois têm mais dificuldade em seguir uma linha de raciocínio.

Será que é hora de pedir ajuda?
Quando a conversa caminha para o desrespeito, não há escuta de um ou de ambos os lados e extrapola limites de convivência, o ideal é tentar buscar alguém que possa ser mediador para que se encontre uma boa solução. Se não apresentar resultado positivo, é hora de procurar ajuda psicológica. “Uma discussão, uma briga ou uma comunicação tóxica é equivalente a uma violência psicológica. Pode provocar bloqueios e traumas pessoais, muitas vezes até favorecer o suicídio de alguém. Quando a mediação não for possível, a pessoa atingida deve procurar para si uma ajuda psicológica”, explica psicóloga e Coach.

Pâmela Medeiros, psicóloga do Programa Vida Saudável da ASSIST, entende que a ajuda de um profissional de Psicologia não deve ser procurada apenas quando o problema ou intercorrência ocorre, em momentos de crise, e sim de uma forma preventiva:

“Atuamos com toda e qualquer forma de funcionamento humano, mudanças de vida, períodos de adaptação, perdas, sentimentos diversos, conquistas pelas quais não achamos que somos capazes. É na psicoterapia que nos apropriamos de ferramentas para colocarmos em prática aquilo que não estamos conseguindo. Não precisamos esperar a crise chegar, podemos cuidar da nossa saúde emocional antes”, coloca a profissional.

A escolha do momento de buscar ajuda de um profissional de psicologia é sua. Mas é importante ter em mente que há ocasiões em que esse auxílio é fundamental para evitar problemas maiores e talvez até desfechos trágicos. E dependendo da situação pode ser tarde. Analisar e ponderar a necessidade e urgência é fundamental.

Cooperação ou campo de guerra?
No trabalho, a importância de manter um diálogo franco e constante também é indispensável para criar um ambiente tranquilo, cooperativo e em que todos se sintam motivados e valorizados. Uma equipe onde há essa troca gera confiança, união e os resultados são mais positivos. Tanto para os profissionais quanto para a empresa. Gestores devem motivar essa interlocução e cada um precisa contribuir, sempre tendo em vista que o formato dessa interação pode ser um pouco diferente por seguir regras de convivência baseadas no comportamento organizacional da companhia, que norteia o dia a dia de seus colaboradores.

“A conversa franca e esclarecedora, colocando-se no lugar do outro, tendo empatia, permite que, a equipe trabalhe de forma coesa e tranquila, e, consequentemente, haverá maior produtividade”, explica a psicopedagoga Daniela Guerra.

“Um líder deve saber ouvir seus comandados e também se colocar a disposição para ajudar quando houver qualquer tipo de conflito. A escuta e a orientação são fundamentais para a coesão da equipe e resultados positivos”, coloca André R.Y. Tomasini, gerente de loja.

Redes Sociais facilitam ou atrapalham o diálogo?
As redes podem ser positivas ou altamente tóxicas. Tudo depende de como se usa a ferramenta e do comportamento do usuário. É importante manter alguns tratos nessa troca. Estabelecer regras pacíficas de convivência. Assim como no diálogo tête-à-tête é necessário o respeito mútuo e saber ouvir e acatar a opinião do outro lado, mesmo quando não há concordância. Também é preciso delimitar horários e prioridades para que não tirem o foco de outras tarefas importantes.

“Para tirar proveito das redes é importante usá-las em momentos adequados (por exemplo, evitar durante o trabalho ou estudo) e como manutenção social, sem exageros. É importante ressaltar que elas não devem substituir totalmente os encontros, mas funcionar como uma ferramenta que nos ajuda em nossas comunicações e interações”, conta o revisor Emmanuel Gallo.

A design de interiores Andréia Lima vê as redes sociais como algo que pode minimizar a solidão: “Podemos utilizar as redes como meio de se unir em momentos como estes que passamos atualmente, onde tantas pessoas se veem sozinhas, fechadas e até depressivas em suas casas”, conclui.

Em tempos de conflitos, como desenvolver uma comunicação não violenta?
Um tema que tem invadido as redes sociais e provocado a realização de grupos de discussão e eventos é a Comunicação não violenta. O psicólogo norte-americano Marshall Bertram Rosenberg (1934-2015) foi o criador do termo também conhecido pela sigla CNV. Marshall, que sofreu bullying na infância, começou desde muito cedo a refletir sobre o que torna alguém violento e como propor uma mudança positiva, que qualquer pessoa pode colocar em prática.

Mas, de que se trata a proposta e como aplica-la no dia a dia? A proposição de Rosemberg nos apresenta quatro passos fundamentais: Observar sem julgar, identificar sentimentos, reconhecer e assumir estes. Eis as dicas preciosas para uma comunicação não violenta:

• Observar sem julgar: Explorar a situação, a opinião e o que sente o outro lado. Analisar sem julgamento. Esperar para questionar no momento adequado.

• Identificar sentimentos, bloqueios internos, traumas e suas necessidades e construir formas de colocar o que pensa e sente, de maneira mais harmônica, ter cuidado com o outro, e no momento mais propício.

• Expressar o que deseja, mas com empatia e não deve ser colocado como uma exigência.

• Desenvolver um sentimento de compaixão, se colocar no lugar do outro.

“Esteja sempre atento a você, busque saber seus limites e possibilidades, não se coloque em contato com o outro quando estiver alterado ou fora do seu padrão normal. Assim, respeitará a si e o outro.”, recomenda Pâmela Medeiros, psicóloga do Programa Vida Saudável da ASSIST.

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