ISTs ainda existem!

Por Christine Keller

O retorno de epidemias como a da sífilis reforça a importância de uma revisão das políticas públicas de saúde e comportamento da sociedade, em relação ao sexo seguro.

As Infecções Sexualmente transmissíveis (ISTs), antes denominadas DSTs, rondam o dia a dia de quem tem uma vida sexual ativa, embora algumas delas possam também ser transmitidas de outras formas. Vistas muitas vezes como tabu, com preconceito e medo, podem e devem ser prevenidas, diagnosticadas e tratadas proporcionando uma vida normal. É fundamental se informar e saber como se proteger, evitando epidemias e mantendo a sua qualidade de vida.

Mas, o que são ISTs?
A mudança do nome para Infecções Sexualmente Transmissíveis foi muito apropriada, uma vez que o termo “doença” tem implicação na manifestação de sinais e sintomas. Desta forma, aquelas pessoas que, embora portadoras da infecção, não chegam a apresentar manifestação da doença, estavam excluídas da antiga denominação.

O Dr. Thiago Leandro Mamede, médico infectologista e professor assistente de infectologia da UFRJ, fala sobre a importância da mudança da nomenclatura. “Para esta condição clínica, um portador assintomático tem grande importância na cadeia de transmissão e precisa ser tratado, mesmo quando não apresenta sintomas, além do fato de que muitas delas podem evoluir com manifestações tardias após um longo período de latência, como a AIDS, a Sífilis, a Hepatite B e a Gonorreia, por exemplo.” – explica.

Segundo o infectologista, no Brasil, somente algumas ISTs são consideradas de notificação compulsória para as autoridades públicas, mas muitas delas fazem parte do cotidiano dos clínicos como a Herpes, Sífilis, HIV, Gonorreia e outras Uretrites Infecciosas, Hepatite B, Cancro Mole, Linfogranuloma Venéreo, Condiloma (HPV), dentre outras.

Um dos maiores problemas ainda é o preconceito e a falta de prevenção. Essas doenças são transmitidas através de relação sexual. No Brasil, embora a prática sexual seja tratada de forma natural, conversas são vistas quase sempre como algo pervertido. O mesmo acontece quando alguém contrai uma destas infecções, muitas vezes levando a um julgamento precipitado.

“O que muitos esquecem é que essas infecções são transmitidas por sexo, independente da forma ou frequência com a qual é praticado, de modo que qualquer pessoa com vida sexual ativa pode ter sido exposta a uma IST. E considerando que, no Brasil, a iniciação sexual geralmente ocorre ainda na adolescência, a exposição do brasileiro às infecções dessa natureza pode ocorrer ainda na adolescência, o que é bastante preocupante.” – relata o Dr. Thiago Leandro Mamede.

Sexo com prazer e informação Mas, o que fazer? Parar de transar? Claro que não! Você pode ter uma vida sexual ativa e se prevenir do contágio das ISTs. A prevenção ainda é o melhor caminho e tem dois objetivos básicos: evitar complicações ocasionadas por essas doenças e interromper a cadeia de transmissão entre as pessoas. Ou seja, protegendo-se, você cuida de si e de quem for seu parceiro ou parceira no sexo.

O ideal é sempre buscar a orientação médica. Qualquer médico clínico é capaz de identificar, diagnosticar e tratar uma IST, porém, quando são casos atípicos e/ou complicados é o especialista que entra, o médico infectologista. Outra boa notícia é que conseguimos acesso pela Rede Pública de Saúde. As situações mais simples podem ser resolvidas na Atenção Básica, como, por exemplo, nas Clínicas da Família. O Dr. Thiago fala mais sobre esses tratamentos:

“Existem Programas e Políticas de Saúde muito bem estruturadas para tratamento e acompanhamento de pessoas que vivem com HIV e portadores de Hepatite Viral, por exemplo, com acesso aos medicamentos mais modernos na primeira linha de tratamento. No entanto, faltam Políticas de Saúde para uma assistência mais eficaz e universal para outras ISTs igualmente importantes como a Sífilis, entre outras.”

A cura para Sífilis foi descoberta há quase um século, e mesmo assim presenciamos recentemente uma epidemia. Um claro sinal de que as Políticas atuais são ineficazes ou insuficientes para controlá-la. Não há uma explicação consensual sobre quais os fatores que contribuíram para o retorno dessa doença. Conforme análise do Dr. Mamede, a causa é provavelmente multifatorial:

“Políticas Públicas ineficazes ou insuficientes, como havia dito, dificuldade em se diagnosticar a infecção, que pode permanecer latente por décadas, sem apresentar sintomas; problemas com o abastecimento de penicilina, levando a um quantitativo elevado de tratamentos inadequados e ineficazes, aliado a ausência de um protocolo de acompanhamento do paciente para controle de cura.” – explica o médico.

Mais alguns fatores que podem ter contribuído, elencados pelo Dr. Mamede são o desconhecimento da sociedade em geral sobre a doença e sua transmissão, que acaba por ignorar as medidas preventivas. “Existe ainda a especulação de que poderia ter ocorrido uma mutação no Treponema, bactéria causadora da Sífilis, que poderia ter levado a um aumento na sua transmissibilidade e virulência, porém, não existem evidências muito consistentes de que esse fenômeno possa ter ocorrido” – conclui o Dr. Thiago Mamede.

HIV – Mitos e Verdades
Muitas pessoas confundem AIDS e HIV. AIDS é uma sigla em inglês e significa “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida” (SIDA, em português). Já o HIV é o vírus causador desta doença. Uma pessoa infectada pelo HIV pode viver durante alguns anos sem apresentar sintomas de imunodeficiência, condição que é denominada de “Infecção pelo HIV”. Neste caso, um paciente portador do HIV pode não apresentar AIDS, mas todo paciente com AIDS é portador do HIV.

“Por outro lado, existem estudos que apontam fortes evidências de que o vírus HIV produza um processo inflamatório leve, generalizado e constante nesses indivíduos, o que torna contraditório esse conceito de “portador assintomático”. Qualquer pessoa que apresente um exame positivo para HIV, seja de laboratório ou farmácia, deve procurar uma Unidade de Saúde especializada para tratamento, pois sabemos que o tratamento precoce reduz o risco de complicações futuras, inclusive mortalidade, além de reduzir o risco de transmissão para outras pessoas.” – explica Dr. Mamede.

Contaminação: É bom saber…
Qualquer pessoa com vida sexual ativa pode pegar ou transmitir o HIV e outras infecções. Abaixo colocamos algumas informações que constam do portal do Ministério da Saúde e definem bem as formas de contágio:

Assim pega: Sexo sem camisinha; Uso de seringa por mais de uma pessoa; Transfusão de sangue contaminado; Da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação; Instrumentos que furam ou cortam não esterilizados.

Assim não pega: Sexo desde que se use corretamente a camisinha; Masturbação a dois; Beijo no rosto ou na boca sem lesão aberta; Suor e lágrima; Picada de inseto; Aperto de mão ou abraço; Sabonete/toalha/lençóis; Talheres/copos; Assento de ônibus; Piscina; Banheiro; Doação de sangue; Pelo ar.

Prevenir é melhor do que remediar
Hoje em dia, se trabalha com o modelo de prevenção combinada, que inclui o diagnóstico e tratamento precoce, objetivando uma carga viral indetectável; a profilaxia pré-exposição para populações alvo; uso de preservativos aliado a outros métodos; profilaxia pós-exposição; prevenção e tratamento de outras ISTs, sobretudo a Sífilis que aumenta em mais de 20 vezes o risco de transmissão do HIV; combate à violência sexual e homofobia; dentre outros.

O diagnóstico é fundamental para Identificar portadores do vírus para oferecer tratamento precoce, reduzindo a morbidade, a mortalidade, e também a transmissão do vírus. Existem testes rápidos, de baixo custo e simples execução. Mas, mesmo eles sendo bastante específicos, é importante procurar um médico, se este apresentar um resultado positivo, ou caso o paciente tenha algum sintoma sugestivo de AIDS e o teste rápido seja negativo.

O Dr. Thiago Leandro Mamede explica o que são as Profilaxias Pré- -Exposição e PEP – Profilaxia Pós Exposição:

“Profilaxia Pré-Exposição é uma combinação de dois antirretrovirais que uma pessoa negativa para o HIV pode tomar diariamente, antes de ser exposta ao vírus, com objetivo de evitar a infecção, presumindo que ela teria grandes chances de ser exposta ao vírus HIV. Já a Profilaxia Pós-Exposição é o tratamento antirretroviral convencional disponibilizado para pessoas previamente HIV-negativas que foram acidentalmente expostas ao vírus. É feito o tratamento durante 28 dias após a suposta exposição ao HIV, com objetivo de evitar que a pessoa se torne HIV-positiva.”

Segundo o Dr. Thiago Leandro Mamede, acabar com as ISTs é uma missão muito difícil, mas não impossível. “Com interesse e investimento em Políticas adequadas e eficazes, acredito que seja possível erradicar ISTs como HIV e Sífilis nos próximos 30-40 anos.” – conclui.

Segundo informações do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde – HIV – AIDS 2018, no Brasil, em 2017, foram diagnosticados 42.420 novos casos de HIV e 37.791 casos de aids. Um número que poderia ser diminuído com a prevenção e tratamento, para impedir a disseminação. A fórmula pode ser mais simples do que parece. A cultura do “isso nunca vai acontecer comigo” precisa ser descontruída. Faça exames periódicos. Caso seja diagnosticado, faça o tratamento e pratique sexo seguro sempre.

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