Infância digital

Por Leonardo Costa e Claudia Guimarães – Psicóloga e psicoterapeuta

Diante das inúmeras possibilidades do ambiente virtual, como conseguimos proteger as crianças e adolescentes dos riscos na internet?

De acordo com especialistas, a disseminação das tecnologias de informação e comunicação promoveram mudanças estruturais em nossa sociedade, especialmente no que diz respeito à estrutura e organização. Internet, inteligência artificial e espaços em nuvens são cada vez mais frequentes. O crescente acesso digital por tablets e smartphones trazem novas oportunidades de socialização e comunicação, porém também trazem alguns riscos.

A vida digital está cada vez mais presente na realidade de crianças e adolescentes, que precisam de orientação. Tanto para assimilação de conteúdos, considerando a quantidade de informações que estão expostos, quanto para proteção, com medidas conscientes de prevenção a superexposição. Além de criarmos o hábito de se informar sobre a política de privacidade e segurança das redes sociais digitais e aplicativos.

Conectividade Brasileira
Anualmente, a pesquisa TIC Kids Online Brasil, conduzida pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), gera indicadores sobre acesso à internet de crianças e adolescente, entre 9 e 17 anos de idade. Em 2017, estimou-se que 85% desta população era usuária de Internet. O aumento do smartphone como porta de acesso ao mundo digital foi considerável, chegando a ser a única opção de conexão para alguns adolescentes.

Segundo a pesquisa, “quanto maior a intensidade do uso, maiores serão as chances de exposição de crianças e adolescentes a riscos, como exposição à publicidade infantil, cyberbullying e conteúdo de natureza intolerante”. O crescimento do smartphone também traz novos desafios aos pais, em relação à mediação de uso da internet.

Se por um lado temos o crescimento da vulnerabilidade pela internet, por outro temos a possibilidade de novas oportunidades. Práticas on-line de participação social, educação e acesso à informação foram significativas, em relação aos anos anteriores da pesquisa. Dos jovens conectados: 51% leram notícias, 76% pesquisaram trabalhos escolares, 28% buscaram informações sobre saúde e 22% sobre o que aconteceu na sua comunidade. O que não diminui a necessidade de acompanhamento.

Perfil Infantojuvenil
A supervisão pela supervisão, sem a preocupação em trabalhar o senso crítico é uma das preocupações apresentadas na pesquisa. A responsabilidade pela segurança deve ser compartilhada proporcionalmente com as crianças e adolescentes. A construção de entendimentos e limites em conjunto com os filhos.

Primeiramente o nível de maturidade de cada criança e adolescente para lidar com as informações que eles acessam é variável e independe da idade. Importante saber se os conteúdos acessados podem ser bem entendidos, elaborados por eles criticamente, se esses assuntos são livremente abordados em casa, se há liberdade de perguntar, de falar a respeito.

Enfim, contexto, crenças, valores, forma de educação, código de regras, o que é permitido ou não. Tudo isso deve ser levado em conta antes de ser colocado um celular ou um computador com livre acesso à internet nas mãos de uma criança ou um adolescente. O diálogo é a ferramenta primordial para a construção de uma relação confiável, onde eles se sintam a vontade para falar, se abrir e discutir sobre tudo.

O desafio está em soltar sem abandonar, cuidar sem sufocar e orientar permitindo a expressão da identidade. Não é tarefa fácil encontrar o caminho do meio, sem polarizar, chegando ao equilíbrio. A conversa, a comunicação clara, aberta e fluente, é sempre um bom caminho.

Quebrar a privacidade também pode ser um ato de amor e cuidado. Um exemplo disso é a quebra de sigilo dos profissionais de saúde, que é justificada quando o paciente está em risco ou coloca alguém em risco. Isto está posto no código de ética, que preza pelo bem estar do ser humano, acima de tudo, da mesma forma que é o propósito da família.

Essa privacidade pode ser colocada abaixo, quando a família identifica que a criança ou o adolescente pode estar utilizando os dispositivos de forma inapropriada, sem moderação, sem filtro e, muitas vezes só descobre quando consegue rastrear o que os filhos estão acessando. Na maioria das vezes os pais só descobrem que os filhos estão nadando em uma piscina cheia de tubarões, quando mergulham nela. É claro que não adianta somente proibir o mergulho, mas devemos desenvolver estratégias de orientação, diálogo e monitoramento para que possamos ensiná-los a nadar onde há tubarões.

Blitz
Se pretendermos fazer algum tipo de “blitz” no smartphone do adolescente, alguns cuidados são necessários para diminuir o conflito. É preciso comunicar o que se pretende fazer, ser acordado. É mais honesto, não há quebra de contrato e ele já sabia desde o início que seria assim, evitando aquele sentimento de traição na relação com os pais. Porém, não só o conteúdo deve ser supervisionado, mas o tempo de imersão na internet e aplicativos.

Mas, e quando não existe o diálogo e a “blitz” não foi acordada? Se não foi, o que os pais fazem na direção e na intenção de cuidar dos filhos precisa ser reconhecido. Se precisar reconstruir o caminho e a relação, que seja então, depois da confiança perdida, com base em uma comunicação clara, aberta e fluente, com regras claras e na verdade do que se pretende, com amor e proteção.

O que os pais têm disponíveis como ferramentas e recursos para manter a segurança das informações dos filhos? Recentemente, no Brasil, algumas plataformas já começam a colocar em prática o seu trabalho de pesquisa junto a empresas especializadas em segurança na internet. Como é o caso do Google que desenvolveu o aplicativo “Family Link” para ajudar os pais.

Compatível com a plataforma Android 4.4, iOS 9 ou superior, basicamente o aplicativo ajuda os pais a estabelecer regras digitais, alinhado a orientação dos filhos enquanto aprendem, brincam ou jogam. Ele permite visualizar o tempo das atividades nos aplicativos. Cria uma permissão para novas instalações, além de poder ocultar aplicativos específicos e sugerir outros de cunho educacional, recomendados por professores.

Nas Redes sociais
É preciso ler o termo de privacidade das redes sociais e entender quais dados que serão coletados e de qual forma eles serão utilizados. Porém, o diálogo com as crianças e os adolescentes precisa ser o caminho complementar, onde eles desenvolvam um pensamento crítico e construtivo que os auxiliem a ajudar na sua proteção. As redes sociais digitais permitem uma superexposição que deve ser minimizada ou até mesmo evitada.

No Facebook, por exemplo, a data de nascimento é solicitada no momento de abertura da conta, para garantir que a experiência do usuário seja adequada a sua idade. O Facebook, na sua Política de Dados sobre menores de idade e segurança, informa que “para proteger os menores de idade, podemos implantar medidas de segurança especiais (como estabelecer restrições sobre a capacidade de adultos compartilharem e comunicar com eles)”.

Mesmo proporcionando uma experiência limitada, outra questão são os dados pessoais e a segurança em relação ao acesso de terceiros desconhecidos ao perfil. Mas, o que são os dados pessoais? São informações relativas à pessoa como telefone, CPF, CEP e localização. Incluindo até os dados de comportamento de uso nas redes, como likes, compartilhamentos, mensagens e interações.

Todos esses dados pertencem ao cidadão e precisam ser utilizados de forma ética, principalmente, no que diz respeito a crianças e adolescentes. A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais é a legislação brasileira que determina como os dados dos cidadãos podem ser coletados e tratados, e que prevê punições para transgressões. Mas, não podemos nos esquecer dos deveres, quando também somos responsáveis pela nossa segurança.

Hábitos Digitais Saudáveis
Enquanto a privacidade dos dados pessoais está no âmbito governamental, no que tange a regulação e fiscalização da utilização destas informações, a superexposição está no âmbito privado que pode ser evitada revendo alguns hábitos digitais. Se antes os registros da infância eram guardados como uma preciosidade, hoje, os posts nas redes sociais caminham ao contrário.

A prática do post, compartilhamento agregados a utopia de milhares de seguidores, contribui cada vez mais para a exposição do privado. Mas, algumas cautelas podem evitar isto. O primeiro passo é mudar a configuração dos perfis, deixando-os no modo privado, quando apenas os seus amigos e familiares autorizados poderão ter acesso ao seu perfil e posts. Principalmente para as crianças e adolescentes, isto já restringe bastante o acesso de terceiros.

Considerando o tempo real das postagens, o hábito de fazer o check-in nas imagens compartilhadas nada mais é do que informar a sua localização para qualquer um. Podendo aumentar o risco de alguém que queira mapear os seus deslocamentos. No caso de crianças, é aconselhado evitar postar fotos com uniformes ou qualquer outra informação que ajude pessoas mal intencionadas a encontrá-las.

A compreensão e a interação com a tecnologia é saudável e faz parte do desenvolvimento humano, porém o exagero e a compulsão que caracteriza a dependência pelo uso de eletrônico, assim como qualquer outra dependência (emocional, química, etc) pode estar à serviço de amortecer sentimentos e dificuldades e/ou cobrir faltas e convivências de pessoas importantes na vida da criança e do adolescente. Então, como anda a vida digital da sua família?

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